quinta-feira, 10 de julho de 2008

Volta?

Pois garrafas e garrafas foram deitadas à maré baixa, caros amigos imaginários. Saqueei todas as tribos das redondezas à cata dos invólucros impermeáveis para meus maus escritos. Poucas respostas obtive, mas pelo menos uma incentivando-me a coalhar os sete mares em continuidade com os envelopes flutuantes.
Volto, então. Volto a observar o que se passa neste quinhão de terra incomum em que não se lavra mais o bom milho e, ao invés da saúde, opta-se pela fumaça negra das estruturas semoventes dieseis que jamais viram uma roça sob suas rodas de borracha.
Mês passado viajei à antiga côrte que, apesar dos tempos difíceis, mantém-se majestosa. Burgo muito mais rico e poderoso que este entretanto não apresenta a mesma concentração dos brutais semi-caminhões que ora entulham nossas vias carroçáveis somente em tempo seco.
Impera aqui a ilusão do roceiro ausente. Em um determinado momento, todos assumiram a condição de roceiros tristemente exilados em urbes. Tão logo e não interessando que sacrifícios possam ser feitos, metem-se nesses absurdos; ouvindo música rural de insondável má qualidade e eventualmente ostentando chapéus de nossos vizinhos anglos milhares de milhas ao norte. Pouquíssimos saberão a diferença entre ovo de pato e ovo de galinha e saem por aí, protegidos pelas películas negras que os ocultam dos olhares de censura dos cidadãos de bem com o beneplácito das autoridades que permitem que um recém-licenciado possa conduzir um verdadeiro tanque de guerra de várias toneladas.
Por via das dúvidas e estando o tempo meio frio, encolho-me no meu ninho do décimo andar, apavorado de medo...

domingo, 2 de março de 2008

Tempo

Num átimo foi-se um ano da última gravação em garrafa do diário do náufrago. Pudera, meus caros! A ilha foi invadida por uma horda de escravos a escavoucá-la em todo e qualquer sítio. Seria ouro? Tesouros? Não os meus pois aqui nada enterrei, e nem teria nada a enterrar. Ficam autóctones e visitantes prisioneiros em sua ilha e peplexidade.

domingo, 11 de março de 2007

Sofrimento

Sofro, sofro, sofro, meus amigos. O que pensava ser uma faina, tornou-se um trabalho de hércules.

Quem manda tratar com corsários! Deixam presentes de grego a cada canto a infernizar as máquinas.

Voltarei!

terça-feira, 13 de fevereiro de 2007

Novo disco

Meus amigos, é mais fácil haver espírito cívico na corte que trocar um HD !

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007

Voltei


Voltei do nada, meus herdeiros. Raramente ausento-me de meu precioso covil onde as paredes são forradas de livros, há ice-box bem abastecido e diversas geringonças de lazer e conforto. Voltei foi de minha macunaímica preguiça em consignar minhas memórias nestas abstrações cibernéticas.


Pois foi hoje, ao novamente sorver da rubiácea eficientemente efervescida pela simpática insular em galeria comercial da ilha que encontrei meu velho amigo professor de literatura. Na realidade deu-se o inverso já que foi este náufrago o encontrado tão absorto estava em suas leituras. Saudou-me e imediatamente lamentou sua contraditória fortuna já que sua filha fora admitida em universidade, porém em província vizinha. E rompe-se-lhe o cordão umbilical a duras penas e dores atrozes. Quanto à moça, estará decerto animada em ver-se longe dos pais e poder pintar o sete, já que trata-se de curso de belas-artes.


Foi-se o amigo, antecipadamente suado, às aulas, que voltaram hoje e ficou este náufrago a considerar por longo tempo a relatividade dessas belas artes. Em Europa, na modernidade dos anos 1600, artistas havia a rodo e empenhavam-se meses a fio em reproduzir fielmente - mesmo que essa ou aquela imperfeição corrigissem - figuras de fidalgos e fidalgas que, em troco, pagavam-lhe, com atraso, moedas. Já neste reino, numa estranhíssima província mais ao sul, testemunhei numa grande mostra de arte uma sala repleta de calçados velhos e outros nem tanto, mas que fariam a alegria de numerosos mendigos. Teriam sido os excedentes daquela senhora dos antípodas, Imelda Marcos? Em meio à desodem de couro, piscava misteriosamente uma luz. Aquilo era rodeado por dezenas de seres insólitos a tentar adivinhar-lhe a arte. Pois este náufrago desistiu incontinenti e pôs-se ao fresco a acenar para cocheiro que a trote ligeiro o largasse em taberna de bom preço, bom pasto e boa bebida a fim de refletir sobre os mistérios da mente humana e se a arte moderna seria conto-do-vigário, pilhéria ou rematada loucura.
Naturalmente que a volta ao covil foi antecipada.


quinta-feira, 25 de janeiro de 2007

Brancos


Brancos acontecem, queridos leitores. Acontecem e devemos deixá-los em paz a resolver suas contendas. Se o nosso canto no universo dos elétrons reciclados ficar estagnado por algum tempo, azar o dele.

De repente surge o assunto e as lembranças deste insólito torrão de terra, barro, areia, pedras e mangues cercado por água irregular.

E não é que estava este náufrago a conversar com um seu herdeiro em linha direta e veio à baila uma das coincidências desta ilha? Pois que naquele labirinto que atende pelo nome de Jardim da Penha, anos atrás, avizinhavam-se dois súditos da Terra do Sol Nascente, mais comumente chamada de Cipango ou Japão, como preferem os jovens. Ambos exímios restauradores. Um deles quase que deu sua vida pelo Imperador já que fora escolhido para pilotar uma aeronave carregada de explosivos contra algum alvo aliado. Salvou-o o fim da guerra. Não sei bem quanto à sua honra. Talvez tenha ficado envergonhado em não morrer pelo imperador e acabou dando com os seus costados nesta ilha, para tentar alimentar os insulares de maneira exótica e com utensílios que não ensejam a indigestão. O outro, melhor dizendo, a outra, sobreviveu ao último bombardeio atômico de uma cidade de lá, que esperemos que seja o último da história. Duas pessoas totalmente gentis, duas testemunhas de fatos que nos parecem hoje pertencer à ficção.

Mal sabem esses dois, se é que ainda vivem - pelo menos um deles tenho certeza que sim - que pelo lado deste náufrago houve uma relação de amizade, em um grau, que chegava ao líder bretão Churchill que, por sua vez esteve diretamente envolvido com o que ocorreu em sua terra...

Pequenas pontes na história, no tempo, na língua e na distância, desta ilha ao mundo...

sexta-feira, 19 de janeiro de 2007

A língua


Estava eu, queridos leitores, a ler com pesar a catástrofe ocorrida em terras bandeirantes. Houve um desabamento em obra de via férreas subterrâneas com infelizes vítimas. Hoje à tarde apreciei o linguajar de uma pessoa a descrever a tragédia: "o túnel começou a colapsar".

E então? Amado leitor? Colapsou o túnel e em consequência desse colapsamento, desabou tudo. Mestres dicionaristas Aurélio Buarque, Caldas Aulete, Hoauiss e mas tantos que se foram deram voltas dentro dos ossuários! Homessa! Será que essa língua lusitana é tão pobre assim que aquele homem seja forçado ao uso de um verbo de tal maneira incomum? Ou é mera imitação do jargão bretão em que to collapse, indeed, é de uso corriqueiro?

Existe uma diferença básica entre um engenheiro ou tecnocrata nacional e um dos países de língua bretã: dificilmente estes sujam suas palavras com expressões estranhas. Preferem sujar as mãos na obra para evitar que esses desabamentos, desmoronamentos, ruínas aconteçam. Uma questão de pudor. A tragédia não é lugar para mostrar-se, para exibir vocabulário elaborado, ainda mais se o porta-voz integra o grupo de culpados. Na tragédia, recolhe-se, apaga-se perante o desespero dos que perderam os seus e o que tinham. Na tragédia, vale o mínimo.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2007

Apóstrofos




Esses, caríssimos, como sabem, não seriam os companheiros do líder da religião cristã na concepção do supremo dignatário deste reino. São essas virgulazinhas que tanto prezam bretões e tanto espanto causam em estrangeiros (de lá).


Desde que cá arribei todo dia vejo algum desses pobres sinais fora de seu lugar, em grande agonia. Hoje pela manhã, num subúrbio insular, vi um deles encurralado num nome de escola que se desejava pomposo: "Oceanu's". Caso raro em que dou nome aos bois. Ora, meus herdeiros, além de desconhecer a palavra Oceanu em dicionários do lusitano, custo em acreditar que aquela instituição a ela pertença já que "Oceanu's" significa pertencente ao Oceanu - seja lá o que isso for.

Tanto o insular quanto o súdito deste reino não conseguem ver a diferença entre isso e o plural. Sim, o bretão também tem um plural, que por vezes é com "s", já que certas palavras do bretão antigo obedecem a outras regras, como man e men. Isso ocorre por abrigarmos em nossas ilhas um grande contingente de imigrantes franceses, que para lá foram em 1066 e influenciaram nossa língua antiga. Assim nós convivemos com regras várias e duas categorias de palavras sendo que as populares vêm do bretão antigo e as mais esnobes, da imigração francesa. Aí está porque o porco no chiqueiro é pig e à mesa, assado comme il faut é pork.

Sabendo-se isso fica fácil não escrever DVD's, CD's, quitute's, refresko's (sic), Krep's Suisso (sic, sic) e outras tolices.

So simple...

terça-feira, 16 de janeiro de 2007

Loudspeaker


Meus herdeiros; loudspeaker é locução bretã que pode ser traduzida tanto por “alto-falante” – muitas vezes grafado como “auto-falante” por pessoas muito distraídas – como por aqueles que pouco poupam suas cordas vocais. Nas Ilhas Britânicas, esses são enforcados, caso não se comportem, ou conduzidos ao exército para ganhar a vida como sargentos: são os que falam alto.

Ontem este náufrago, após cambiar alguns dos dobrões de prata que estavam nas arcas do capitão do galeão encalhado, dirigiu-se a uma das galerias comerciais da ilha a fim de degustar, na companhia de uma gazeta, uma rubiácea efervescida gentilmente preparada por simpática insular.

Tão logo instalou-se à uma isolada mesa e foi invadido pelo diálogo de duas velhas comadres, encarnadas em dois homens velhos a reclamar de suas infelizes companheiras: “Dou cem conto e deixo ela em Guarapari” fanfarroneava um, imaginando que aquela fora uma quantia razoável para uma fêmea. “Essas mulé enche o saco” concordava o outro.

Mais infeliz que as dignas e abandonadas esposas dos insulares ficou este náufrago, sob o altíssimo volume de suas arengas e de seus erros de concordância. Sem falar da infâmia que é homem feito reclamar de mulher; algo que em certos recantos orientais é punido com refinadas torturas.

Teria o portável ensejado o confidenciar em altos volumes ou o contrário? Aqui já manifestei, caríssimos amigos, meu espanto ao ouvir diálogos travados ao citado meio de comunicação como se ele não fora em hipótese alguma necessário já que o volume sonoro empregado era suficiente para léguas de separação.

Em todo o caso, concordei com alguns historiadores que com muitíssima justiça chamavam a este reino “Terra dos Papagaios”...

domingo, 14 de janeiro de 2007

Fog


Lá ia eu, amicíssimos, esbravejar contra as grandes chaminés da ponta de Tubarão ao ver, da varanda do covil, a ilha coberta de névoa. Mas faltava algo. O desagradabilíssimo cheio de enxofre; aquela coisa acre que em tudo penetra, deixando um gosto metálico na boca e causando não ouso imaginar que tipo de desgraça nos cérebros dos recém-nascidos. Não estava lá.


Era um mero nevoeiro. Um fog; igualzinho aos lá de casa... Pensando bem, igualzinho não, já que lá perde-se o caminho como muitas vezes aconteceu comigo. Um mero acúmulo de umidade; uma nuvem no chão. Menos mal que esta noite não abriram os filtros ou estaríamos no pior dos mundos: o venenoso smog, que é a mistura da névoa com a maldita fumaça, como já ocorreu.


Deixarei para depois o esbravejar.