domingo, 17 de dezembro de 2006

As pontes


Como toda ilha moderna e industriosa, esta aqui necessita de comunicação física eficiente e segura com o continente. Os generosos céus a situaram a distância reduzida da grande massa de terra e após séculos de catraias e canoas, ergueram-se pontes.


Curiosamente o insular só considera como pontes as do lado sul. Assim a primeira ponte lançada sobre a baía - apelidada de "Cinco Pontes", apesar de ostentar nome oficial pouco falado: "Florentino Avidos", segundo os locais, ou Ávidos, como grafam os mapas impressos em terras bandeirantes - e considerada como a primeira de todas, havia sido precedida em alguns anos por outra ponte, do lado norte a qual, então, nomearemos de ponte zero. Hoje é de concreto, mas continua a ser chamada por alguns de "Ponte de Tábuas", já que antigamente era de madeira. Coisas daqui.
Mais tarde, construíram a Segunda Ponte, que não o era, mas cujo apelido originou a fuzarca que tento descrever, já que antes disso e também do lado norte já havia sido erguida outra, além da Zero. (Esta anônima e modesta ponte será, em nossos cálculos, a ponte Um e Meio.) Pode existir um hipotético nome oficial, mas como é próprio Real está abandonada e imunda e ninguém se lembra dela, a não ser para acidentar-se de quando em vez.
Finalmente projetou-se a Terceira Ponte (a qual, parece, também tem um nome qualquer, devidamente ignorado) que, como todo empreendimento do Reino, foi projetada no lugar mais largo da baía, e em curva, a fim de que proprocionasse o máximo de empregos e lucros à realeza. Natural, sintomática e simultaneamente à construção, sumiram, como que por encanto, os dobrões de ouro que a pagariam e assim imobilizou-se e arrastou-se a obra por anos a fio. Quando finalmente ficou pronta, após novas remessas de moedas, constatou-se que uma das maiores pontes do Reino havia sido deixada à própria sorte sobre águas Reais pois ao baixar às terras muncicipais e estaduais do continente não se ligava diretamente a nenhuma avenida ou estrada importante, fazendo com que tanto insulares quanto continentais acudissem a ela por vias transversas, cheias de curvas e meandros. Provavelmente implicâncias da Corte com os poderes locais. Hoje está arrendada a alguns amigos do Rei.
Entrementes, a tal ponte Um e Meio ganhava irmã gêmea e independente, mas que também não recebeu numeração sabendo-se, por fonte segura, que cada uma delas presta homenagem a ilustres desconhecidos. Um na ida e outro na volta. Uma delas, rigorosamente podre, quase caiu no ano passado. Talvez suas vencidíssimas obras de conservação tenham esbarrado na burocracia do Patrimônio Histórico


Mais tarde, foi feita mais uma ponte, também do lado norte, que não recebeu o apelido de Quarta Ponte (ou seria Terceira Ponte e Meio? Ou Ponte Terceira e Mais Metade?). Como é lamentável a perda de certas tradições aqui pois nem apelido a pobre ponte ganhou! Talvez a população já tivesse perdido as contas e resolvido, por dúvida insuperável, não dar curso à numeração ou, realmente, acreditasse que continente era do lado sul, já que para o lado norte a distância é tão ridícula que a ilha não parece ser ilha. Neste caso e de maneira surpreendente, já que a população insular, pouco afeita a homenagear estrangeiros e célebre por desconhecer qualquer nome de rua, chama-a pelo seu nome correto, atribuído a um não-autóctone !


Em resumo, existem sete pontes ligando a ilha ao continente: uma é conhecida como "Cinco Pontes" - apesar de ser uma só; outra é a "Segunda Ponte", apesar de ser a terceira; outra ainda é "Terceira Ponte", apesar de ser a quarta ou quinta; mais uma é chamada de "Ponte de Tábuas", apesar de ser em concreto (mas devo confessar que outros a chamam de "Ponte da Passagem"); por fim, duas receberam apelidos genéricos ("Ponte de Camburi"), as tais que têm nomes diferentes para cada mão de direção: um notável feito de bajulação oficial. A única que todos conhecem pelo nome correto é aquela que imortaliza certa figura do meio automobilístico, que provavelmente nunca cá botou seus pés ou rodas.
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Isso sem falar da "Ponte Seca", mas creio existirem limites para a credibilidade de meus herdeiros.
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Como muito bem o observou, de certa feita, uma brilhante insular: "Esta ilha é uma delícia"!


sábado, 16 de dezembro de 2006

Tradições


Como todo súdito da coroa britânica - a contragosto pois nós, escoceses ainda não concordamos inteiramente com essa anexação - este náufrago é pessoa apega a tradições. Uma coisa que me encantou nesta ilha foi que algumas delas eram respeitadas; pelo menos à época do naufrágio. Infelizmente, com o passar do tempo, algumas desapareceram por má vontade local ou simplesmente por mudança do mundo ou dos hábitos:


A Enxova. Essa é uma que está em processo final de desaparecimento por absoluta falta de vontade dos insulares, ou talvez por medo da polícia. Era algo encantador, que procuro preservar todo dia primeiro de abril, quando lamentavelmente as pessoas não atendem aos meus telefonemas ou não os levam a sério por mais aflito ou desesperado que eu pareça. Não se manda mais despejar caminhão de brita às seis da manhã na porta da garagem do amigo. Não se rouba mais carro alegórico. Não se faz mais pedido falso de caixões a serem entregues na casa de amigo. Não se publicam mais anúncios em nome de amigos agradecendo a médicos proctologistas por bem-sucedidas operações. Não se mede mais a pressão no pescoço de incautos. Não se fazem mais passar por técnicos da telefônica, mandando puxar o fio da parede até arrancá-lo fora. Uma pena pois fazia a cidade muitíssimo divertida.


O apelido. Outra que está menos presente. Esta ilha rivalizava com Nichtheroy na elaboração de grandes e inesquecíveis apelidos: Farol Baixo, Areia Mijada, Zé Cocó, Bafo de Onça, Sovaco de Ouro, Zé Tiroteio, Filtros Europa etc etc etc. Nem morto revelo os alcunhados.


Mestre Álvaro. Quando aqui arribei, ao levantar-me da areia e perscrutar os horizontes logo reparei aquele morro alto que parecia preocupantemente ser um vulcão. Não passava de um inofensivo barômetro natural e infalível do insular, "botava o chapéu" de nuvens quando ia chover. Era tiro e queda. Agora anda esclerosado e usa o chapéu quando não deve.


Depois cá voltarei para acrescentar mais coisas.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2006

ApErtamentos


Vinte e tantos anos atrás, o insular desfrutava do prazer de morar em uma casa. Naquele tempo, para seduzir possíveis compradores, os construtores dessas torres de pedra, aço e vidro que transformaram a ilha em um ouriço, eram obrigados a oferecer apartamentos espaçosos. Assim podia-se conciliar o conforto de uma casa com a conveniência de um apartamento.


Com o tempo e à medida que as casas foram sendo substitídas pelas terríveis torres, quase que inverteu-se a situação. Na mesma proporção, reduziu-se a área dos apartamentos. Hoje há muitíssimos insulares engavetados. Engavetados? Sim, pois nada mais adequado do que essa expressão. Uma consulta às folhas de notícias locais e especificamente aos reclames desses construtores apresenta um desenho em perspectiva da torre, geralmente esquecem-se dos postes e transformadores que infestam as ruas, há carros modelo esporte e jovens em profusão e em permanentes férias. Já as plantas são quase que um mistério absoluto e quando são - de péssima vontade - apresentadas, aparecem em escala milimétrica, ou microscópica. Já o que esses senhores chamam de "área de lazer", geralmente constituídas por uma piscina rasa, uma churrasqueira de alvenaria, banhos turcos e pátios e mais pátios e quadras e mais quadras de cimento, recebem um destaque só comparável aos grandes do esporte local. Fico só imaginando quem pagará pela astronômomica manutenção desses verdadeiros principados: provavelmente os generosos construtores já que certamente são brindes. Um estudo à lupa das pouqíssimas plantas disponíveis, por este náufrago que estava habituado a ler plantas navais lá na Escócia, revelou-lhe coisas incríveis. Uma delas se faz pelo método da contagem de lugares: conta-se o número de pessoas que dormem nos croquis das tais plantas. Após, tenta-se colocá-las todas para jantar ou sentar na sala ao mesmo tempo. Pois saibam, caros herdeiros, que dificilmente isso será possível, a menos que adotem o sistema dos grandes navios de servir as refeições em vários serviços. Naturalmente que a recepção de amigos ficará absolutamente prejudicada dentro dos parâmetros normais de privacy preconizando a porta de entrada ficar cerrada. Rumores há de festas que espalharam-se pelos corredores do prédio, escadas e até mesmo elevadores.


Outra coisa bastante interessante é o depósito existente em várias dessas plantas. geralmente próximo às cozinhas. Serão para mercadorias ou vinhos? Em pouca quantidade, acredito, já que seu espaço é bastante reduzido.


Semana passada, por puro esporte, já que meu covil satisfaz tanto a mim quanto ao meu bolso, fui visitar uma meia-dúzia dessas habitações. Pois foi então que descobri a razão da pouca divulgação das blue prints: elas são todas iguais. Como sou pessoa curiosa, armei-me de trena e constatei para meu assombro e desconforto dos simpáticos corretores que alguns dos dormitórios dificilmente comportariam simultaneamente guarda-roupas e camas de tamanho decente a menos que suas portas não se abrissem ou fossem de correr. Ouve-se falar de insulares internados às pressas em hospitais para tratar de ferimentos às mãos. Haviam-nas metido na vidraça da janela, ao espreguiçar-se de manhã. Quando indagados a respeito da economia em tomadas de energia elétrica, contra a quantidade de aparelhos que uma família normalmente tem e o perigo de utilizar-se de adaptadores, esses pobres rapazes não conseguiram articular explicações. Talvez seja alguma instrução dos poderosos da Corte para economia de energia.


Ao visitar as garagens, caríssimos leitores, lembrei-me de minha terra e fascinei-me pela profusão de colunas, idênticas às masmorras que por engano frequentei em Escócia. Os corretores orgulhavam-se ao enfatizar a disponibilidade de uma ou mais vagas para apartamento, mas quando medi-as, ficou claro que esses pequenos caminhões que ora navegam preguiçosamente por nossas avenidas dificilmente caberiam nelas, a menos que fossem serrados ao meio. Eficientes, os profissionais garantiram-me que os regulamentos do condado estavam sendo cumpridos à risca e quanto a isso, quem é este pobre náufrago para contestar o que for? Soube, em baixa voz, que muitas e muitas dessas garagens sofrem por esses veículos invadirem a área de tráfego com sua proa por meia braça mesmo estando a popa encostada à parede do fundo !


A parte dolorosa foi a lista de preços. Meus herdeiros! Por muito menos que isso, em certos países da Europa Oriental, um construtor seria acusado de infâmia e ganância pagã e impalado em execração pública ! São pequenas fortunas que certamente tornam dificílimo comprar-se e viver-se em um apartamento novo simultaneamente pois ou se paga ou se come; sem pensar em coisas tão ridículas quanto móveis ou contas. Se antigos moradores de apartamentos grandes desejarem trocar seu imóvel confortável, porém velho e decadente, por um novo, terão que admitir a mudança para verdadeiras iron maidens tamanho família. Os recém-chegados ao mercado e ávidos pelo bairro da moda não têm escolha. Já os espertos, dispensam o prestígio de bairros nobres, adquirem um belo apartamento antigo na Cidade, reformam-no e ainda sobram bolsas de moedas de ouro para mobiliá-lo extravagantemente.


I'm flabbergasted, dear friends, deeply flabbergasted...

quarta-feira, 13 de dezembro de 2006

Comunicações 2


Alguns de meus amigos autóctones acharam estranha essa minha constatação das comunicações locais serem rápidas. Pois afirmo, leitores, que por muitas vezes comentaram algum feito meu antes de ter acontecido! Mais ainda, comentaram comigo ! By Jove!


Uma personalidade tipicamente insular é o perito em comunicações: só ele, ou ela, sabem da veracidade de tal ou tal informação pois sempre têm fonte segura. Uma ilha minúscula é lugar onde todos se conhecem, então a regra de sete pessoas para chegar a qualquer uma em qualquer lugar do mundo aqui cai para três; às vezes duas. Tanto é que frequentemente recebe-se a mesma história de dois ou três desses peritos ajudando a compor uma verdade.


São pessoas muito interessantes. Existem os que conhecem carros e seus donos pelas respectivas placas de matrícula. Outros são especialistas em determinadas tabernas ou bazares. Outros ainda em praias. Uma grande quantidade, na tal Guarapari. Eficientíssimos todos em detalhar coisas inacreditáveis com uma eficiência de guarda-livros da Coroa.


Aqueles especialistas em veículos sabem onde esses costumam trafegar e quais seus passageiros. Qualquer anomalia nesses padrões desperta um sexto sentido de "aí tem treta".

Os que conhecem a fundo as casas de pasto ficam atentos a quem quer que compareça aos recintos e em companhia de quem. São cérebros privilegiados que tecem associações muito longas remontando a parentescos ou laços de afinidade extremamente remotos.


Já os que fiscalizam bazares atentam para aqueles que estão a comprar o quê e automaticamente calculam se a atividade condiz com a renda do observado.
Quanto aos praianos e de Guarapari, são fiéis consignadores da forma física da população e prestam inestimável serviço de saúde pública denunciando aqueles cuja barriga necessite de uma atenção. Como esse é um assunto delicado, tal informação é passada para terceiros que se encarregarão de fazer chegar anonimamente o resultado do exame ao gordo ou, preferencialmente, gorda.

Naturalmente que os que passam os dias a observar os vizinhos não podem ser esquecidos pois são preciosos na localização de pessoas desaparecidas. Uma pequena consulta a três ou quatro peritos em cada vizinhança supera qualquer busca policial. Logo se localizam as pessoas que se deseja encontrar assim como todos os seus hábitos, qualidades e, sobretudo, defeitos.


Todos eles assumem o sagrado compromisso de reportar, no menor espaço de tempo possível, qualquer comportamento anômalo de seu rebanho em benefício da harmonia da coletividade.


Ao final da semana, contudo, tais informantes descansam e se reúnem em diversas igrejas; praticamente uma para cada indivíduo tantas pululam por aqui. Lá agradecem aos céus a graça de viver em um lugar que permita exercer sua vocação em toda a sua plenitude e secretamente exultam por não cair um raio perdido em suas cabeças.

Comunicações


Vinte e tantos anos atrás, caríssimos leitores, a comunicação daqui mal havia passado da época primitiva: boca a ouvido. Os sistemas modernos feitos pelo intermédio daquela engenhoca presa a fios eram raros e precários.

Atualmente, existe uma quantidade enorme de pequenas máquinas portáteis que a troco de fortunas permitem ao nativo comunicar-se com outro, esteja ele do outro lado do mundo ou apenas cinco passos além, num bazar. Por tradição, foi cuidadosamente preservado o emprego de voz altíssima para tal; o que denota civilização já que os que honram a sua história são pessoas de mérito.

De tal forma a democracia é respeitada nesta ilha que os autócnones, sempre conversando altíssimo, e de asa aberta aos seus portáteis, dividem com seus pares detalhes íntimos como operações de hemorróidas ou processos falimentares. Considero isso um ato de confiança, de gentileza.

São essas pequenas coisas que fazem um náufrago esquecer-se ou consolar-se da distância até seu lar escocês.

Outra marcante atitude do insular é sua sede por informações da comunidade a fim de mantê-la coesa. Pequenos detalhes são sôfregamente divididos com amigos boca a orelha ou portátil a portátil e assim evitam-se desagradabilíssimas gafes ao, encontrando-se com esse ou aquele, estar-se mal informado sobre uma sua separação ou algo parecido. Ficam todos muito a par do que ocorre por todos os lados. Very wise indeed...

terça-feira, 12 de dezembro de 2006

Tempo


Todo súdito da coroa britânica, seja onde for, e nutra a simpatia que nutrir pelos Senhores ingleses acordará todo dia aflito com o tempo. Também dormirá aflito com o tempo e, why not?, almoçará aflito com o tempo. Não digo o tempo dos relógios, já aqui discutido e também obsessivamente observado pelos britâncos e membros da Commonwealth, mas o tempo da janela, lá de fora. A chuva é uma constante nas ilhas e assim seus habitantes andam normalmente armados de guarda-chuvas. A maior vergonha para um britânico é ver-se desprovido de teto ambulante na chuva do dia; algo sumamente vulgar. Quando troquei acidentalmente de ilhas, sem que tal fora um trocad'ilha, imaginei que os locais seriam igualmente estressados pela perspectiva da chuva sem o abrigo portátil apropriado. Notei, todavia, que os isulares de cá pouco se preocupam com o assunto, menos quando se aproximam os fins de semana e a anual peregrinação a Guarapari. Geralmente observam o que diz determinada emissora de sons e imagens, aquela cujo logotipo era um abridor de latas e agora é: ou uma vela (de barco); ou uma palheta de guitarra - ainda não entendi direito - e consideram o oposto: chuva anunciada é tirar os apetrechos de praia do armário e sol anunciado significa providenciar uma 'sombrinha'.

De qualquer maneira a chuva aqui normalmente é econômica e dura meio dia se tanto. Mais do que isso e os infelizes contribuintes constatarão que seus impostos não foram empregados em limpeza de galerias de águas pluviais tampouco na aquisição de capas de chuva para os antipáticos agentes de trânsito municipais. Enquanto isso, na calçada, recebem um caldo dos automóveis de luxo das autoridades, todos com os vidros escurecidos para esconder seus envergonhados ocupantes. Fico imaginando uma monção daquelas, tão comuns nos nossos territórios do Subcontinente por aqui...


Realmente, esta ilha é um lugar onde quando cai uma chuva mais demorada todos se transformam em colegas deste miserável náufrago, encalhados por todos os cantos. Welcome to the club!

sábado, 9 de dezembro de 2006

Guarapari


Estamos a exatos dez dias do início oficial do verão. (Este excêntrico blog estabelece como data da postagem o do primeiro rascunho) Logo depois, o terrível Natal, suas obrigações suarentas e desagradáveis e suas comidas pesadíssimas. Em seguida, o ano novo. Nessa altura o insular começa a portar-se de maneira muito estranha e tal como ave migratória, sai aos bandos rumo sul. Aos milhares desloca-se de uma cidade praiana para outra a fim de veranear. Fato curiosíssimo neste reino: aparentemente umas 30 milhas (ou 50 quilômetros, como é de uso local) fazem enorme diferença para o nativo. Saem de uma praia em que se gasta pouco para outra em que se gastará muitíssimo.

Resolvi estudar o assunto e comparei fotogafias e daguerreótipos antigos com a atualidade, espantando-me com o paraíso que foi sistematicamente destruído com a anuência de burgomestres gananciosos. Fui à tal localidade de Guarapari para assuntar in loco as razões desse comportamento. Alguns anos atrás morria-se tremendamente na péssima estrada que para lá levava e quase sempre tínhamos a lamentar a perda de um ou outro amigo, conhecido e até parentes. Mesmo assim aquilo se repetia ano após ano. Os autóctones enfrentavam aquela rodovia mortal como formigas indo ao açucareiro, em filas indianas catatônicas e ininterruptas. Finalmente construíram uma formidável auto-estrada que agora permite um tráfego veloz e mais seguro embora alguns achem que alcool em excesso não os fará dar cambalhotas com seu veículo. Lá chegando, deparei-me com uma horrenda e desordenada concentração de prédios; multidões - não só dos insulares, como de viandantes longínquos - vagando pelas ruas assim como carros por todos os lados. As praias ficaram com suas areias pretas - certamente em decorrência do pisoteio interminável - e rigorosamente entupidas de gente. Também não vi estações de esgoto e assim fiquei imaginando a composição do caldo onde os febris veranistas banham-se. Um imenso estacionamento de veículos e gente em tal concentração que nem as modernas telecomunicações funcionam. Não se nada, não se senta, se é explorado por vendedores de cerveja quente a peso de ouro, come-se mal e caramente em péssimas casas de pasto após enfrentar filas intermináveis, morre-se de calor e à noite as pessoas forram todos os chãos possíveis de desconfortáveis apartamentos ou casas com colchões de uma polegada e dormem, às dezenas, suando em bicas sob mosquitos vorazes. Na rua, os insones bebem tremendamente e urinam também tremendamente pelos cantos deixando-se tomar por algo dantesco e altíssimo, que insistem em qualificar de música: uns estafermos berrando frases ordinárias de três palavras e várias vogais abertas. Entrudos se formam e nesse ambiente pestilento honras e virgindades desaparecem em meio à ébria curiosidade popular. Ali, na rua, nos automóveis ou até nas árvores, os nativos, tratam de copular furiosamente. Todos eufóricos. Passei sebo nas canelas e voltei cá para meu refúgio que transpirava sossego e conforto.

O que mais me admira é quando finalmente começa o ano - depois do carnaval - essas pessoas voltarão para casa, em nossa ilha, metade maldizendo o lugar: Guarapari está uma bosta" e metade adorando: "Guarapari estava uma maravilha". Todos extremamente queimados de sol e com o fígado, as finanças e as vergonhas aos pandarecos. Todos, gostando ou não da temporada, sonhando com a excursão do ano vindouro. Nesse interregno a tal Guarapari cochilará, desinfetará suas ruas e lamberá suas feridas, com pouquíssimos habitantes numa solidão de mar aberto.

Dia desses observei um grupo de caranguejos deslocar-se numa areia de praia deserta. Iam todos num passo gaguejado numa mesma direção, e lembrei-me dos insulares e sua migração de verão. Talvez o intenso consumo do feio polípodo tenha provocado alguma coisa neles, essa procissão mesmerizada, automática; ou seria então algum período de acasalamento local? Talvez um sabático de freios soltos em lugar longe de casa. Inspirando-me numa expressão dos colonos da América do Norte a respeito de uma de suas estâncias de jogos diria: "O que acontece em Guarapari, fica em Guarapari".

Falando Sério


Falando sério? Será que alguém fala realmente sério neste reino? Outro dia estava a escutar aquele aparelho muito comum por aqui, que verte sons e músicas (?). A folhas tantas um senhor ao apregoar aos berros não sei que mercadoria de que mercador informou ao abismado ouvinte a "hora certa".


Meus queridos herdeiros, após ouvir a tal expressão, pus-me a caminhar pela praia de Camburi até o entardecer. "Hora certa"! O que seria isso já que hora é hora e se existir a certa, existiria a errada? Será que pessoas vis passariam seus dias a divertir-se informando horas erradas à plebe ignara? Caiu a noite e este náufrago tropeçou em algo pertinente às obras de Santa Ingrácia, digo, às obras de urbanização da praia. Manquei até a calçada, praguejando em diversos idiomas e recolhi-me ao meu pobre covil.


No dia seguinte, o pé incomodando-me sobremaneira, dirigi-me a um desses locais públicos em que curandeiros e barbeiros ocupam-se de doentes e acidentados. Lá informaram-me que em um minutinho um cirurgião trataria de meu pobre dedão, cuja unha estava por um fio. Meus herdeiros, pois foi com o estômago a roncar por providências muitas horas depois que percebi terem-nas passado as tais horas e o minutinho local ser talvez mais longo que o dos monges meditativos da Índia! Finalmente fui medicado e, curioso, indaguei das horas. As pessoas presentes, todas muito gentis informaram-me-na ao mesmo tempo: cada um uma hora diferente. Sei bem que era coisa de minutos, mas ninguém estava no mesmo horário. Será que cada relógio seria regulado de maneira diferente? Alguns mais rápidos, outros mais lentos? E a tal da "hora certa" grunhida pelo locutor do aparelho? Seria em vão?


Na esquina mexi os bolsos, achei alguns cobres e adquiri um relógio de pulso a um oriental que não falava uma palava do que fosse.


Na rua reparei que os relógios públicos hoje desaparecidos, aqueles que indicavam tanto a temperatura quanto a hora, estavam todos bastante discordantes entre si. Nenhum deles indicava o que o meu relógio apresentava. É verdade que eles se localizavam em microclimas pois as temperaturas informadas variavam em vários graus também. Isso talvez afetasse seu delicado mecanismo. Mas nem os relógios enormes, no alto de orgulhosos prédios apresentavam horário idêntico ao meu!


Explicado estaria, então caríssimos herdeiros que, por vezes ao convidar amigos para dividir algum vinho e carne em meu humilde covil, alguns não compareçam nem dão satisfações. Talvez estejam perdidos pelos fusos horários.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2006

Culinária


O insular é povo cozinheiro. Tanto os homens quanto as mulheres. Cada um tem sua especialidade e adora mostrá-la aos amigos em verdadeiros desafios culinários.


Deve ser por essa razão, caros leitores que vinte e tantos anos atrás, após encalhar na ilha do Socó e empreender idas e vindas à praia para salvar o que pudesse numa cabana que construí, fui em busca de casa de repasto, em um sábado à tarde e nada encontrei. Estava tudo fechadíssimo. Nem uma simples padaria, nem uma taverna daquelas de aguardente e cerveja, com um ovo cozido colorido da semana passada. Zero. Passei fome. Tavernas e casas de repasto fechavam cedo com certeza para que seus proprietários juntassem-se aos que estavam trancados em casa cozinhando. Naquele tempo era quase que exclusivamente a moqueca que dizem os da terra ser exclusivamente capixaba pois o resto é peixada. Feita em antiquíssimas panelas de barro e alguns apetrechos misteriosos onde se ferve o urucum, cuja finalidade é desconhecida pois que insosso.


Na minha santa inocência europeia e sabendo este reino rico em boa carne aventurei-me, de outra feita, em adentrar casas de repasto com apetite para um excelente e vasto bife com fritas. Pois, caros leitores, isso era rigorosamente desconhecido por estas plagas e ainda o é. Vinte e tantos anos atrás, as casas de repasto eram de uma simplicidade franciscana com mesas e cadeiras doadas por mercadores de cerveja. Comia-se a moqueca ou então entregavam-se os autóctones ao tal febril ritual do desmembramento e chupação de caranguejos; algo cuja simples menção me traz à mente relatos sobre o que a inquisição papista andou realizando no pobre continente europeu.


Viviam disso, os nativos: caranguejos, camarões e moquecas. Sanduíches em hipótese alguma pois nem pão de forma encontrava-se que não fosse algo estranho, produzido pela própria padaria.


Os anos foram passando e cá arribando novos náufragos que, aos poucos, conseguiram introduzir novos hábitos culinários. Conseguiram a incrível façanha de convencer os insulares que o peixe poderia ser cortado de outra maneira que não em postas, algo de dificílima compreensão já que o animal era ora fatiado latitudinalmente ora assado inteiro, o pobre infeliz, para nosso deleite. Aprenderam que o peixe tem um filé que, se preparado adequadamente, com manteiga e alcaparras induz uma mansidão das papilas gustativas incomparável.


Minha tristeza, caríssimos, ainda se resume ao bife com fritas que, como já disse, inexiste ainda. Preparam carne de todas as maneiras mas ainda não aprenderam a colocar um belo bife num prato com batatas fritas que não tenham sido congeladas antes. Também devoram-se sanduíches tremendos, vastíssimos, a deixar escorrer coisas diversas pelos lados. Muito superiores aos importados das colônias inglesas do norte que sabem a papelão com pepinos.


Os autóctones agora exibem talentos culinários diversos aos amigos em sua eterna competição. Alguns deles meteram-se até a provar de vinhos e ficam a bochechá-los de modo curiosíssimo ao passo que nós preferimos bebê-los aos goles, clamando por mais; e que encham-me a taça, por favor!


Fiquei faminto...

quinta-feira, 7 de dezembro de 2006

Pequeno dicionário do lusitano insular


Uma das aflições, ou diria eu, gasturas de aqui passar a viver foi, queridos leitores, habituar-me às expressões locais. Uma ou outra foi de fácil assimilação mas fiquei flabbergasted (sinto utilizar-me de expressão bretã intraduzível, mas cuja aparência reflete o sentido) no momento em que o encarregado de uma pequena obra pediu-me para arranjar "lajotas". Como o piso não era de lajotas, fiquei sem saber do quê se tratava, até que descobri serem elas os tijolos vazados!


Para ajudar aos forasteiros, tratei de juntar algumas expressões tipicamente insulares e conto com a ajuda de todos para acrescentar as inúmeras omissões quando me forem enviadas:

Taruíra - Lagartixa
Vasilha - Louça (lavar as vasilhas)
Litro - Garrafa
Pó - Café
Trigo - Farinha de trigo
Pocar - Estourar
Ei - Oi
Iá - Ora vejam só
Lajota - Tijolo
Ponga (em desuso) - Carona
Sombrinha - Guarda-chuva
Mixirica - Tangerina
Gastura - Aflição
Bucha - Esponja
Janta - Jantar
Bandejola - Tabuleiro
Sacola - Algo cuja tradução é sutil. Pode ser uma sacola de supermercado, mas um saquinho de batatas fritas também é "sacola" !
Pif-paf - Brigadeiro (de chocolate)
Gravura - Qualquer imagem, pode ser impressa ou gravada. Até pôster.
Secretária - Empregada doméstrica
Você não quer me levar no cinema não? - Apesar dos dois nãos significa: Me leva ao cinema?