
domingo, 24 de dezembro de 2006
sábado, 23 de dezembro de 2006
sexta-feira, 22 de dezembro de 2006
Festas e música

Na longa sucessão de agonias de cada fim de ano, queridíssimos herdeiros, a conjunção de festas e música não pode deixar de ser mencionada.
Em Europa era hábito colocar-se música em segundo, terceiro ou quarto plano; unicamente para alegrar um pouco o ambiente. Se a celebração contemplasse a música, então todos se manteriam em silêncio sepulcral até que o intérprete finalizasse sua arte.
Nesta tropical ilha, caríssimos, há um eterno conflito: em qualquer festa é tocada música em volume altíssimo. Assim a quem deseja dialogar, trocar idéias só restam duas opções: gritar ou desistir. Isso quando a música é de estilo tolerável, já que misteriosamente, quanto pior ou mais vulgar, mais alto ela é tocada, seja na casa do amigo ou na casa do vizinho, ou nas ruas. Meus ouvidos, acostumados à música clássica são violentamente agredidos por estilos que vão da emulação de cães sendo longa e dolorosamente torturados; caso da música de Goyaz ou de estridentes uivos temperados a percussão ensurdecedora; caso da música soteropolitana. Esses são dois expoentes. Infelizmente não estão sós pois existe um círculo inferior neste inferno que é o da boçalidade musical dos subúrbios da antiga corte e dos sambas de latrina bandeirantes.
Já estão apavorados, queridíssimos? Pois saibam que ocasionalmente o espírito selvagem aflora em toda a sua virulenta realidade e apela às terriveis engenhocas portáteis inventadas em Cipango. Com elas, além da péssima música, indivíduos totalmente entorpecidos pela aguardente local, tomam de microfones e se põem a massacrar os ouvidos alheios com escalas musicais totalmente desconhecidas no Ocidente. Algo de tal forma dantesco que muitos acharão que minto, mas é verdade e não foram poucos os que pereceram em atroz agonia após poucos minutos desse horror.

Até na rua, existem infelizes bicicletando caixas negras povoadas por demônios. Talvez fugindo da milícia.
Já na hora de apreciar-se o trabalho de qualquer intérprete, amantíssimos herdeiros, em qualquer lugar acham-se os insulares e demais habitantes destes trópicos no direito de conversar em boa e alta voz, competindo com o artista que mesmo armado de possantes equipamentos amplificadores de seu desempenho, por vezes dá-se por vencido e abandona o palco para ir chorar sua miséria em um canto em companhia de garrafas e vira-latas. Provavelmente vingança, por não terem conseguido tagarelar nas festas!
Surrealismo puro, leitores !
Lugares-comuns
Vinte e tantos anos são tempo suficiente, caríssimos, para notar um padrão nas gazetas e folhas de aviso insulares. Como é dificílimo que ocorram terremotos, furacões, maremotos ou guerras a cada dia - algo com que imenso folgariam e mais ainda seus patrões - há de se garimpar notícia onde houver, nem que seja repetição de anos passados. Nem os escândalos da corte, de tão repetitivos e impunes, geram atenção.
Uma das mais interessantes diz respeito à escasíssima indumentária que mal veste as moçoilas ávidas por sol e areia. Já alcançaram o mínimo. Menor do que isso só sem a utilização de panos e costuras. Pois vejam só, ilustres passageiros, que todo ano soltam a notícia que "este ano, os biquínis vão ser menores, mais comportados". Acredito vivamente que os periodistas escrevam essas tolices às gargalhadas já que têm certeza que serão desmentidos num piscar de olhos: deve ser um primeiro de abril extemporâneo, avivado pelo calor do verão. As tais moçoilas, comportando-se então abominavelmente, reduzem a areia essas trepidantes notícias em uma única manhã de sol.

Outra coisa extremamente interessante é o comportamento social. Basta ocorrer uma tragédia em bairro pobre que inevitavelmente seremos informados que naquele lugar "o ambiente era de revolta". Pois é. A três por quatro ocorrem revoltas em bairros populares ao passo que em bairros nobres provavelmente encontraremos faniquitos ou vapores. Isso pode ser tanto em conseqüencia de falta d'água, mosquitos, alto-falantes de templos protestantes ou uma simples constipação. Invariavelmente o pobre revolta-se ao passo que o rico suspira de aborrecimento ou tristeza, mas isso não é notícia.
Outra coisa bastante exótica é a história de "praticar preços". Homessa! Desde quando preço é guitarra, que se pratique? Preço cobra-se, impõe-se, determina-se! Seria algo obrigatório o emprego de tamanha estultície? Os periodistas são pessoas simpáticas e sensíveis, fico a imaginar com que horror são forçados a isso.
Um terror esse dia-a-dia das gazetas, excelentíssimos. Água sai de pedras. Afinal de contas, feijão com arroz é o prato diário.
Enfim. Já passaram sob a ponte as reportagens sobre "dicas" de presentes, galerias comerciais lotadas, calor, falta de dinheiro, falta de vergonha dos edis, falta de neve, preços exorbitantes do bacalhau e das nozes e do que mais for em dezembro. Agora só nos resta aguardar a dose anual de videntes e suas previsões de ano-novo, sempre erradíssimas.
Uma das mais interessantes diz respeito à escasíssima indumentária que mal veste as moçoilas ávidas por sol e areia. Já alcançaram o mínimo. Menor do que isso só sem a utilização de panos e costuras. Pois vejam só, ilustres passageiros, que todo ano soltam a notícia que "este ano, os biquínis vão ser menores, mais comportados". Acredito vivamente que os periodistas escrevam essas tolices às gargalhadas já que têm certeza que serão desmentidos num piscar de olhos: deve ser um primeiro de abril extemporâneo, avivado pelo calor do verão. As tais moçoilas, comportando-se então abominavelmente, reduzem a areia essas trepidantes notícias em uma única manhã de sol.

Outra coisa extremamente interessante é o comportamento social. Basta ocorrer uma tragédia em bairro pobre que inevitavelmente seremos informados que naquele lugar "o ambiente era de revolta". Pois é. A três por quatro ocorrem revoltas em bairros populares ao passo que em bairros nobres provavelmente encontraremos faniquitos ou vapores. Isso pode ser tanto em conseqüencia de falta d'água, mosquitos, alto-falantes de templos protestantes ou uma simples constipação. Invariavelmente o pobre revolta-se ao passo que o rico suspira de aborrecimento ou tristeza, mas isso não é notícia.
Outra coisa bastante exótica é a história de "praticar preços". Homessa! Desde quando preço é guitarra, que se pratique? Preço cobra-se, impõe-se, determina-se! Seria algo obrigatório o emprego de tamanha estultície? Os periodistas são pessoas simpáticas e sensíveis, fico a imaginar com que horror são forçados a isso.
Um terror esse dia-a-dia das gazetas, excelentíssimos. Água sai de pedras. Afinal de contas, feijão com arroz é o prato diário.
Enfim. Já passaram sob a ponte as reportagens sobre "dicas" de presentes, galerias comerciais lotadas, calor, falta de dinheiro, falta de vergonha dos edis, falta de neve, preços exorbitantes do bacalhau e das nozes e do que mais for em dezembro. Agora só nos resta aguardar a dose anual de videntes e suas previsões de ano-novo, sempre erradíssimas.
quinta-feira, 21 de dezembro de 2006
Camaradagens

Queridíssimos amigos. Desde que pisei nas escaldantes e grossas areias de Camburi, após a longa nadada de cem metros que se seguiu ao encalhe na ilha do Socó, me vi enredado em um meio singular.
Antes de mais nada, tive que ser aceito pelos desconfiadíssimos insulares, cuja atitude é secular pois que estas terras eram fortaleza contra a ingressão de estrangeiros sequiosos pelas riquezas das Minas Gerais. Isso levou algum tempo, mas que superado, fez este estranho ser integrar-se a uma sociedade que tem inúmeras regras não-escritas, protege com zelo os seus e que - como tudo - está em mudança. Pois meus herdeiros, nunca ficava-se só neste lugar; fora-o para fins de comentários como para solidariedade. Dificilmente um membro do círculo interno insular ficava aguardando transporte coletivo ou mecânico sem que, incontinenti, parasse um conhecido a ajudá-lo. Da mesma forma, era-lhe concedido tratamento preferencial em casas de mercado, veículos de aluguel e até aeroportos. Exagero? A pobre companheira deste naufrago chegou a ganhar carona em táxis; algo inédito haja visto a má fama da classe. Dizia-se que um autóctone podia sair de casa sem um tostão no bolso, almoçar, fazer compras e abastecer seu veículo; bastando para isso ir aos lugares certos. É claro que levas e mais levas de estrangeiros fascinados com essas gentilezes corromperam a prática e isso tornou-se raro. Esse aumento da população fez com que os insulares da gema diluissem-se dentre mais e mais outsiders. Estupor dos estupores, é comum agora viajar-se em aeronave sem conhecer viv'alma a bordo! Um escândalo.
Enfim. Não sei se é por ser fim de ano, ou por resquício dessa doce época, que este náufrago foi ontem atendido em oficina mecânica, furando a fila (sem pedir), tratado pelo nome - não obstante não lá pisar há anos - e cobrado uma bagatela por excelente conserto. Ainda por cima recebeu brindes !
quarta-feira, 20 de dezembro de 2006
Vestimentas

Ao cá arribar, salvei o que pude do galeão, encalhado lá na ilha do Socó. Consegui ferramentas, móveis, instrumentos, livros e até roupas, que lavei e arrumei em meu covil.
Pois, herdeiros meus, um belo dia fui convidado a pequeno convescote em casa de insulares. Vesti-me à vontade, como é do hábito da terra, aluguei um fiacre e cheguei pontualmente ao lugar de meus anfitriões. Escusado dizer que fui o primeiro, sendo que a dama ainda estava ao chuveiro e o cavalheiro recém adentrava a residência sobraçando cervejas e quitutes. Ajudei no que pude - que não foi no banho da dama, infelizmente - e refestelei-me à espera dos demais convidados.
Leitores queridos; lá pelas tantas começaram a chegar os casais e as damas sós. Eles vestidos mais ou menos como eu. Já elas, estavam prontíssimas para a ópera ou a recepção a algum arquiduque ou embaixador: sedas, brilhantes e complicadíssimos penteados. Foi por um triz que não escapei para meu covil a fim de resgatar o uniforme de gala do capitão e só não o fiz por reparar que os cavalheiros não participavam daquele desfile particular.
Pouco a pouco comecei a reparar no apuro que as damas locais dedicam às suas vestimentas. Algo assombroso pois que para ir a uma simples padaria estariam prontas para uma boda real.
Já os cavalheiros, com o passar dos anos, deram para levar ao estado de arte o seu despojar. Deambulam por aqui e ali com simples bermudões, camisetas sem mangas, sandálias de plástico e umas bolsas ao cinto. Seu estado de satisfação extrema ocorre ao debruçarem-se, despenteados e macambúzios, empurrando carrinhos de compras das grandes mercearias.
Existem, no entanto, infelizes insulares que andam trajados de terno e paletó, geralmente negro, o que os faz transpirar abundantemente. São figuras exóticas que podem ser vistas freqüentando misteriosíssimos templos aparentemente dedicados à construção civil (pois instrumentos de pedreiro decoram sua entrada) ou passando horas à porta de casas de pasto barulhentas e noturnas, ou ainda no imenso palácio pintado de rosa e azul onde empenham-se em derreter os dobrões do Tesouro Estadual.
Eu continuo no meu meio-termo, temeroso do que possa acontecer a quem quer que fuja desses uniformes, que parecem ser mandatórios.
Intervalo - de novo

E quem foi que disse que intervalo é só um? Sim, fiz forfait por dois dias, mas amanhã, que já é hoje, pois que a ampulheta marca uma da manhã, voltarei com mais memórias.
Agora vou recolher-me ao hammock de meu covil. Rezem para que não chova e que os mosquitos tenham piedade de mim. Quanto aos vizinhos, pobres infelizes: mais uma noite sob o manto protetor de meus roncos.
domingo, 17 de dezembro de 2006
As pontes

Como toda ilha moderna e industriosa, esta aqui necessita de comunicação física eficiente e segura com o continente. Os generosos céus a situaram a distância reduzida da grande massa de terra e após séculos de catraias e canoas, ergueram-se pontes.
Curiosamente o insular só considera como pontes as do lado sul. Assim a primeira ponte lançada sobre a baía - apelidada de "Cinco Pontes", apesar de ostentar nome oficial pouco falado: "Florentino Avidos", segundo os locais, ou Ávidos, como grafam os mapas impressos em terras bandeirantes - e considerada como a primeira de todas, havia sido precedida em alguns anos por outra ponte, do lado norte a qual, então, nomearemos de ponte zero. Hoje é de concreto, mas continua a ser chamada por alguns de "Ponte de Tábuas", já que antigamente era de madeira. Coisas daqui.
Mais tarde, construíram a Segunda Ponte, que não o era, mas cujo apelido originou a fuzarca que tento descrever, já que antes disso e também do lado norte já havia sido erguida outra, além da Zero. (Esta anônima e modesta ponte será, em nossos cálculos, a ponte Um e Meio.) Pode existir um hipotético nome oficial, mas como é próprio Real está abandonada e imunda e ninguém se lembra dela, a não ser para acidentar-se de quando em vez.
Finalmente projetou-se a Terceira Ponte (a qual, parece, também tem um nome qualquer, devidamente ignorado) que, como todo empreendimento do Reino, foi projetada no lugar mais largo da baía, e em curva, a fim de que proprocionasse o máximo de empregos e lucros à realeza. Natural, sintomática e simultaneamente à construção, sumiram, como que por encanto, os dobrões de ouro que a pagariam e assim imobilizou-se e arrastou-se a obra por anos a fio. Quando finalmente ficou pronta, após novas remessas de moedas, constatou-se que uma das maiores pontes do Reino havia sido deixada à própria sorte sobre águas Reais pois ao baixar às terras muncicipais e estaduais do continente não se ligava diretamente a nenhuma avenida ou estrada importante, fazendo com que tanto insulares quanto continentais acudissem a ela por vias transversas, cheias de curvas e meandros. Provavelmente implicâncias da Corte com os poderes locais. Hoje está arrendada a alguns amigos do Rei.
Entrementes, a tal ponte Um e Meio ganhava irmã gêmea e independente, mas que também não recebeu numeração sabendo-se, por fonte segura, que cada uma delas presta homenagem a ilustres desconhecidos. Um na ida e outro na volta. Uma delas, rigorosamente podre, quase caiu no ano passado. Talvez suas vencidíssimas obras de conservação tenham esbarrado na burocracia do Patrimônio Histórico
Mais tarde, foi feita mais uma ponte, também do lado norte, que não recebeu o apelido de Quarta Ponte (ou seria Terceira Ponte e Meio? Ou Ponte Terceira e Mais Metade?). Como é lamentável a perda de certas tradições aqui pois nem apelido a pobre ponte ganhou! Talvez a população já tivesse perdido as contas e resolvido, por dúvida insuperável, não dar curso à numeração ou, realmente, acreditasse que continente era do lado sul, já que para o lado norte a distância é tão ridícula que a ilha não parece ser ilha. Neste caso e de maneira surpreendente, já que a população insular, pouco afeita a homenagear estrangeiros e célebre por desconhecer qualquer nome de rua, chama-a pelo seu nome correto, atribuído a um não-autóctone !
Em resumo, existem sete pontes ligando a ilha ao continente: uma é conhecida como "Cinco Pontes" - apesar de ser uma só; outra é a "Segunda Ponte", apesar de ser a terceira; outra ainda é "Terceira Ponte", apesar de ser a quarta ou quinta; mais uma é chamada de "Ponte de Tábuas", apesar de ser em concreto (mas devo confessar que outros a chamam de "Ponte da Passagem"); por fim, duas receberam apelidos genéricos ("Ponte de Camburi"), as tais que têm nomes diferentes para cada mão de direção: um notável feito de bajulação oficial. A única que todos conhecem pelo nome correto é aquela que imortaliza certa figura do meio automobilístico, que provavelmente nunca cá botou seus pés ou rodas.
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Isso sem falar da "Ponte Seca", mas creio existirem limites para a credibilidade de meus herdeiros.
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Como muito bem o observou, de certa feita, uma brilhante insular: "Esta ilha é uma delícia"!
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