quarta-feira, 13 de dezembro de 2006

Comunicações


Vinte e tantos anos atrás, caríssimos leitores, a comunicação daqui mal havia passado da época primitiva: boca a ouvido. Os sistemas modernos feitos pelo intermédio daquela engenhoca presa a fios eram raros e precários.

Atualmente, existe uma quantidade enorme de pequenas máquinas portáteis que a troco de fortunas permitem ao nativo comunicar-se com outro, esteja ele do outro lado do mundo ou apenas cinco passos além, num bazar. Por tradição, foi cuidadosamente preservado o emprego de voz altíssima para tal; o que denota civilização já que os que honram a sua história são pessoas de mérito.

De tal forma a democracia é respeitada nesta ilha que os autócnones, sempre conversando altíssimo, e de asa aberta aos seus portáteis, dividem com seus pares detalhes íntimos como operações de hemorróidas ou processos falimentares. Considero isso um ato de confiança, de gentileza.

São essas pequenas coisas que fazem um náufrago esquecer-se ou consolar-se da distância até seu lar escocês.

Outra marcante atitude do insular é sua sede por informações da comunidade a fim de mantê-la coesa. Pequenos detalhes são sôfregamente divididos com amigos boca a orelha ou portátil a portátil e assim evitam-se desagradabilíssimas gafes ao, encontrando-se com esse ou aquele, estar-se mal informado sobre uma sua separação ou algo parecido. Ficam todos muito a par do que ocorre por todos os lados. Very wise indeed...

terça-feira, 12 de dezembro de 2006

Tempo


Todo súdito da coroa britânica, seja onde for, e nutra a simpatia que nutrir pelos Senhores ingleses acordará todo dia aflito com o tempo. Também dormirá aflito com o tempo e, why not?, almoçará aflito com o tempo. Não digo o tempo dos relógios, já aqui discutido e também obsessivamente observado pelos britâncos e membros da Commonwealth, mas o tempo da janela, lá de fora. A chuva é uma constante nas ilhas e assim seus habitantes andam normalmente armados de guarda-chuvas. A maior vergonha para um britânico é ver-se desprovido de teto ambulante na chuva do dia; algo sumamente vulgar. Quando troquei acidentalmente de ilhas, sem que tal fora um trocad'ilha, imaginei que os locais seriam igualmente estressados pela perspectiva da chuva sem o abrigo portátil apropriado. Notei, todavia, que os isulares de cá pouco se preocupam com o assunto, menos quando se aproximam os fins de semana e a anual peregrinação a Guarapari. Geralmente observam o que diz determinada emissora de sons e imagens, aquela cujo logotipo era um abridor de latas e agora é: ou uma vela (de barco); ou uma palheta de guitarra - ainda não entendi direito - e consideram o oposto: chuva anunciada é tirar os apetrechos de praia do armário e sol anunciado significa providenciar uma 'sombrinha'.

De qualquer maneira a chuva aqui normalmente é econômica e dura meio dia se tanto. Mais do que isso e os infelizes contribuintes constatarão que seus impostos não foram empregados em limpeza de galerias de águas pluviais tampouco na aquisição de capas de chuva para os antipáticos agentes de trânsito municipais. Enquanto isso, na calçada, recebem um caldo dos automóveis de luxo das autoridades, todos com os vidros escurecidos para esconder seus envergonhados ocupantes. Fico imaginando uma monção daquelas, tão comuns nos nossos territórios do Subcontinente por aqui...


Realmente, esta ilha é um lugar onde quando cai uma chuva mais demorada todos se transformam em colegas deste miserável náufrago, encalhados por todos os cantos. Welcome to the club!

sábado, 9 de dezembro de 2006

Guarapari


Estamos a exatos dez dias do início oficial do verão. (Este excêntrico blog estabelece como data da postagem o do primeiro rascunho) Logo depois, o terrível Natal, suas obrigações suarentas e desagradáveis e suas comidas pesadíssimas. Em seguida, o ano novo. Nessa altura o insular começa a portar-se de maneira muito estranha e tal como ave migratória, sai aos bandos rumo sul. Aos milhares desloca-se de uma cidade praiana para outra a fim de veranear. Fato curiosíssimo neste reino: aparentemente umas 30 milhas (ou 50 quilômetros, como é de uso local) fazem enorme diferença para o nativo. Saem de uma praia em que se gasta pouco para outra em que se gastará muitíssimo.

Resolvi estudar o assunto e comparei fotogafias e daguerreótipos antigos com a atualidade, espantando-me com o paraíso que foi sistematicamente destruído com a anuência de burgomestres gananciosos. Fui à tal localidade de Guarapari para assuntar in loco as razões desse comportamento. Alguns anos atrás morria-se tremendamente na péssima estrada que para lá levava e quase sempre tínhamos a lamentar a perda de um ou outro amigo, conhecido e até parentes. Mesmo assim aquilo se repetia ano após ano. Os autóctones enfrentavam aquela rodovia mortal como formigas indo ao açucareiro, em filas indianas catatônicas e ininterruptas. Finalmente construíram uma formidável auto-estrada que agora permite um tráfego veloz e mais seguro embora alguns achem que alcool em excesso não os fará dar cambalhotas com seu veículo. Lá chegando, deparei-me com uma horrenda e desordenada concentração de prédios; multidões - não só dos insulares, como de viandantes longínquos - vagando pelas ruas assim como carros por todos os lados. As praias ficaram com suas areias pretas - certamente em decorrência do pisoteio interminável - e rigorosamente entupidas de gente. Também não vi estações de esgoto e assim fiquei imaginando a composição do caldo onde os febris veranistas banham-se. Um imenso estacionamento de veículos e gente em tal concentração que nem as modernas telecomunicações funcionam. Não se nada, não se senta, se é explorado por vendedores de cerveja quente a peso de ouro, come-se mal e caramente em péssimas casas de pasto após enfrentar filas intermináveis, morre-se de calor e à noite as pessoas forram todos os chãos possíveis de desconfortáveis apartamentos ou casas com colchões de uma polegada e dormem, às dezenas, suando em bicas sob mosquitos vorazes. Na rua, os insones bebem tremendamente e urinam também tremendamente pelos cantos deixando-se tomar por algo dantesco e altíssimo, que insistem em qualificar de música: uns estafermos berrando frases ordinárias de três palavras e várias vogais abertas. Entrudos se formam e nesse ambiente pestilento honras e virgindades desaparecem em meio à ébria curiosidade popular. Ali, na rua, nos automóveis ou até nas árvores, os nativos, tratam de copular furiosamente. Todos eufóricos. Passei sebo nas canelas e voltei cá para meu refúgio que transpirava sossego e conforto.

O que mais me admira é quando finalmente começa o ano - depois do carnaval - essas pessoas voltarão para casa, em nossa ilha, metade maldizendo o lugar: Guarapari está uma bosta" e metade adorando: "Guarapari estava uma maravilha". Todos extremamente queimados de sol e com o fígado, as finanças e as vergonhas aos pandarecos. Todos, gostando ou não da temporada, sonhando com a excursão do ano vindouro. Nesse interregno a tal Guarapari cochilará, desinfetará suas ruas e lamberá suas feridas, com pouquíssimos habitantes numa solidão de mar aberto.

Dia desses observei um grupo de caranguejos deslocar-se numa areia de praia deserta. Iam todos num passo gaguejado numa mesma direção, e lembrei-me dos insulares e sua migração de verão. Talvez o intenso consumo do feio polípodo tenha provocado alguma coisa neles, essa procissão mesmerizada, automática; ou seria então algum período de acasalamento local? Talvez um sabático de freios soltos em lugar longe de casa. Inspirando-me numa expressão dos colonos da América do Norte a respeito de uma de suas estâncias de jogos diria: "O que acontece em Guarapari, fica em Guarapari".

Falando Sério


Falando sério? Será que alguém fala realmente sério neste reino? Outro dia estava a escutar aquele aparelho muito comum por aqui, que verte sons e músicas (?). A folhas tantas um senhor ao apregoar aos berros não sei que mercadoria de que mercador informou ao abismado ouvinte a "hora certa".


Meus queridos herdeiros, após ouvir a tal expressão, pus-me a caminhar pela praia de Camburi até o entardecer. "Hora certa"! O que seria isso já que hora é hora e se existir a certa, existiria a errada? Será que pessoas vis passariam seus dias a divertir-se informando horas erradas à plebe ignara? Caiu a noite e este náufrago tropeçou em algo pertinente às obras de Santa Ingrácia, digo, às obras de urbanização da praia. Manquei até a calçada, praguejando em diversos idiomas e recolhi-me ao meu pobre covil.


No dia seguinte, o pé incomodando-me sobremaneira, dirigi-me a um desses locais públicos em que curandeiros e barbeiros ocupam-se de doentes e acidentados. Lá informaram-me que em um minutinho um cirurgião trataria de meu pobre dedão, cuja unha estava por um fio. Meus herdeiros, pois foi com o estômago a roncar por providências muitas horas depois que percebi terem-nas passado as tais horas e o minutinho local ser talvez mais longo que o dos monges meditativos da Índia! Finalmente fui medicado e, curioso, indaguei das horas. As pessoas presentes, todas muito gentis informaram-me-na ao mesmo tempo: cada um uma hora diferente. Sei bem que era coisa de minutos, mas ninguém estava no mesmo horário. Será que cada relógio seria regulado de maneira diferente? Alguns mais rápidos, outros mais lentos? E a tal da "hora certa" grunhida pelo locutor do aparelho? Seria em vão?


Na esquina mexi os bolsos, achei alguns cobres e adquiri um relógio de pulso a um oriental que não falava uma palava do que fosse.


Na rua reparei que os relógios públicos hoje desaparecidos, aqueles que indicavam tanto a temperatura quanto a hora, estavam todos bastante discordantes entre si. Nenhum deles indicava o que o meu relógio apresentava. É verdade que eles se localizavam em microclimas pois as temperaturas informadas variavam em vários graus também. Isso talvez afetasse seu delicado mecanismo. Mas nem os relógios enormes, no alto de orgulhosos prédios apresentavam horário idêntico ao meu!


Explicado estaria, então caríssimos herdeiros que, por vezes ao convidar amigos para dividir algum vinho e carne em meu humilde covil, alguns não compareçam nem dão satisfações. Talvez estejam perdidos pelos fusos horários.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2006

Culinária


O insular é povo cozinheiro. Tanto os homens quanto as mulheres. Cada um tem sua especialidade e adora mostrá-la aos amigos em verdadeiros desafios culinários.


Deve ser por essa razão, caros leitores que vinte e tantos anos atrás, após encalhar na ilha do Socó e empreender idas e vindas à praia para salvar o que pudesse numa cabana que construí, fui em busca de casa de repasto, em um sábado à tarde e nada encontrei. Estava tudo fechadíssimo. Nem uma simples padaria, nem uma taverna daquelas de aguardente e cerveja, com um ovo cozido colorido da semana passada. Zero. Passei fome. Tavernas e casas de repasto fechavam cedo com certeza para que seus proprietários juntassem-se aos que estavam trancados em casa cozinhando. Naquele tempo era quase que exclusivamente a moqueca que dizem os da terra ser exclusivamente capixaba pois o resto é peixada. Feita em antiquíssimas panelas de barro e alguns apetrechos misteriosos onde se ferve o urucum, cuja finalidade é desconhecida pois que insosso.


Na minha santa inocência europeia e sabendo este reino rico em boa carne aventurei-me, de outra feita, em adentrar casas de repasto com apetite para um excelente e vasto bife com fritas. Pois, caros leitores, isso era rigorosamente desconhecido por estas plagas e ainda o é. Vinte e tantos anos atrás, as casas de repasto eram de uma simplicidade franciscana com mesas e cadeiras doadas por mercadores de cerveja. Comia-se a moqueca ou então entregavam-se os autóctones ao tal febril ritual do desmembramento e chupação de caranguejos; algo cuja simples menção me traz à mente relatos sobre o que a inquisição papista andou realizando no pobre continente europeu.


Viviam disso, os nativos: caranguejos, camarões e moquecas. Sanduíches em hipótese alguma pois nem pão de forma encontrava-se que não fosse algo estranho, produzido pela própria padaria.


Os anos foram passando e cá arribando novos náufragos que, aos poucos, conseguiram introduzir novos hábitos culinários. Conseguiram a incrível façanha de convencer os insulares que o peixe poderia ser cortado de outra maneira que não em postas, algo de dificílima compreensão já que o animal era ora fatiado latitudinalmente ora assado inteiro, o pobre infeliz, para nosso deleite. Aprenderam que o peixe tem um filé que, se preparado adequadamente, com manteiga e alcaparras induz uma mansidão das papilas gustativas incomparável.


Minha tristeza, caríssimos, ainda se resume ao bife com fritas que, como já disse, inexiste ainda. Preparam carne de todas as maneiras mas ainda não aprenderam a colocar um belo bife num prato com batatas fritas que não tenham sido congeladas antes. Também devoram-se sanduíches tremendos, vastíssimos, a deixar escorrer coisas diversas pelos lados. Muito superiores aos importados das colônias inglesas do norte que sabem a papelão com pepinos.


Os autóctones agora exibem talentos culinários diversos aos amigos em sua eterna competição. Alguns deles meteram-se até a provar de vinhos e ficam a bochechá-los de modo curiosíssimo ao passo que nós preferimos bebê-los aos goles, clamando por mais; e que encham-me a taça, por favor!


Fiquei faminto...

quinta-feira, 7 de dezembro de 2006

Pequeno dicionário do lusitano insular


Uma das aflições, ou diria eu, gasturas de aqui passar a viver foi, queridos leitores, habituar-me às expressões locais. Uma ou outra foi de fácil assimilação mas fiquei flabbergasted (sinto utilizar-me de expressão bretã intraduzível, mas cuja aparência reflete o sentido) no momento em que o encarregado de uma pequena obra pediu-me para arranjar "lajotas". Como o piso não era de lajotas, fiquei sem saber do quê se tratava, até que descobri serem elas os tijolos vazados!


Para ajudar aos forasteiros, tratei de juntar algumas expressões tipicamente insulares e conto com a ajuda de todos para acrescentar as inúmeras omissões quando me forem enviadas:

Taruíra - Lagartixa
Vasilha - Louça (lavar as vasilhas)
Litro - Garrafa
Pó - Café
Trigo - Farinha de trigo
Pocar - Estourar
Ei - Oi
Iá - Ora vejam só
Lajota - Tijolo
Ponga (em desuso) - Carona
Sombrinha - Guarda-chuva
Mixirica - Tangerina
Gastura - Aflição
Bucha - Esponja
Janta - Jantar
Bandejola - Tabuleiro
Sacola - Algo cuja tradução é sutil. Pode ser uma sacola de supermercado, mas um saquinho de batatas fritas também é "sacola" !
Pif-paf - Brigadeiro (de chocolate)
Gravura - Qualquer imagem, pode ser impressa ou gravada. Até pôster.
Secretária - Empregada doméstrica
Você não quer me levar no cinema não? - Apesar dos dois nãos significa: Me leva ao cinema?

Mais d'antanho




O exdrúxulo título, apesar de sugerir prato italiano, procede. São pequenos detalhes que marcaram este náufrago em suas primeiras expedições exploratórias.
Tanto em Escócia quanto em França ou outros lugares, existe a instituição do endereço: vias recebem nomes ou números e as casas ou prédios são numeradas com ordem pré-estabelecida. Em minhas andanças creio que só vi sistema diferente em Cipango, na cidade de Tóquio, cujo misterioso endereçamento deve ter sido criado para evitar espionagens, tão misteriosos são esses orientais. Outro lugar foi na Venezuela, estranhíssimo lugar, governado por um sargento de exército ou algo semelhante. Lá não existem os números dos imóveis: simplesmente pontos de referência - edifício tal, entre rua tal e avenida tal.
Pois nesta ilha, queridíssimos herdeiros, vinte e tantos anos atrás, a situação era mais misteriosa que Tóquio. Para início de conversa, parecia não serem as vias batizadas. E se o foram, eram referidas pelo nome antigo. Como se não fora suficiente, inexistiam as placas indicando-as ou, solução velhaca, eram afixadas no meio dos quarteirões, economizando-se metade delas, já que seria desnecessário colocá-las em cada esquina ! É possível que ainda existam algumas, sobreviventes à fúria derrubadoura da Praia do Canto. Muito bem. Não se sabendo das vias e avenidas, recorria-se a pontos de referência, mesmo que desaparecidos: rua da Seidel, rua da Bambina, praça do Santa Martha. Coisa para profundos conhecedores da história local. Não satisfeitos, os números das casas, em existindo, eram fruto de sorteio em chapéu, aleatoriamente atribuídos.
Outra indicação de absoluta tranquilidade para o nativo era o nome do edifício e muito se espantava se o forasteiro desconhecesse prédios tão célebres quanto o edifício Jusmar ou o Paulo Ví.
Ultimamente apareceram placas com o nome das ruas em alguns lugares e os números estão um pouco mais visíveis, mas perdura o curiosíssimo costume de solicitar-se um ponto de referência.
Soube de zangados comerciantes face a tal exigência, após informar correta e exaustivamente seu endereço e até seu posicionamento em latitude e longitude, darem como ponto de referência a própria loja, para deleite e alívio do interlocutor.

Pois é, caríssimos. Pior do que isso é um viajante no lugar chamado de Jardim da Penha. Sei de alguns perdidos por lá há anos...

quarta-feira, 6 de dezembro de 2006

Enchendo Lingüiça


E não é que importante diário insular publicou missiva deste náufrago?

Li, com horror, a notícia da criação de uma nova secretaria de obras em nossa cidade. Tal horror não se originou pela inútil criação burocrática pois bastava criar-se uma sub-divisão da atual secretaria. Foi algo mais sutil: nos últimos anos, o burocratês oficial esqueceu-se da palavra "obra" e preferiu substituí-la pelo genérico "intervenção": passaram a ser comuns expressões nauseantes tais como "intervenção semafórica" ao invés de troca ou colocação de placas ou sinais. Li a notícia lentamente, aterrado pela possibilidade da utilização do medonho neologismo. Foi então com alívio que, ao final da leitura, constatei que alguma sensatez prevaleceu e que uma possível e intolerável "Secretaria de Intervenções" não nasceu, mas duvido que tal nome não tenha sido secretamente aventado...

Pois é, caros leitores. Em dias de pouca inspiração, tira-se água de pedras.

Antropofagia bípede


Caros herdeiros. Antes de cá naufragar naveguei por esse mundo afora e testemunhei das coisas mais exóticas, dos mais variados costumes. Vi as mulheres girafas e os faquires; os mandarins e suas tranças e as chinesas com pés minúsculos; vi os pigmeus de África e os gigantes da Terra do Fogo. Também vi na Mandchúria chineses comer cérebros de macacos vivos, até morrerem; comerem serpentes, cães, escorpiões e até gente, em Nova Guiné! Por um triz escapei de ser devorado pelos antropófagos de lá.


Felizmente estas terras não abrigam amantes da antropofagia embora autócnones me tenham assegurado de sua existência séculos atrás, entre os primitivos ocupantes destas plagas.


Cá as pessoas normalmente compram ou pescam seu alimento. Cada vez mais compram já que o mar anda escasseando o bom peixe e os mangues estejam ficando procupantemente desabitados de caranguejos. Aliás, não compartilho do hábito local em deglutir esses polípodos de deslocamento lateral e intermitente que chafurdam no lodo pois me lembra os festins de antropofagia que testemunhei nos antípodas: os pobres crustáceos são fervidos vivos e depois disso esquartejados e destruídos a golpes de pequena borduna. Chupam-se-lhes as poãs e bebem-se-lhes um caldo que esgota das entranhas. Além disso, seu odor lembra o de certas algumas namoradas que tive, pelos portos do mundo.


Nada porém supera o frango antropófago que descobri em grande mercador de comida daqui. Acredito ser ele um frango conhecido e célebre por seu canibalismo pois até pouco tempo atrás sua imagem era estampada nas embalagens de frango assado que o tal lugar vendia. Está ele lá, com garfo e faca, pronto para devorar, com muito gosto, um de seus semelhantes.


Felizmente guardei uma dessas imagens ou ninguém, nem na Capadócia acreditaria em mim!


Censurei o nome do tal mercador pois não estou aqui para fazer propaganda de ninguém!

terça-feira, 5 de dezembro de 2006

Arranha-céus


Foi-se o tempo, caríssimos leitores, em que gozava-se da generosa brisa desta ilha. Era uma delícia absoluta, pelo menos para mim. Quanto aos nativos, talvez sejam eles de origem gaulesa pois parecem ter horror aos courants d'air - correntes de ar. Ora, jamais soube de vento ser maléfico pois se tal o fora e não se navegaria. Estranhos e enclausurados gauleses. Mas voltemos aos insulares e seus hábitos esquisitos. Estão a paliçar o entorno da ilha, caríssimos! Erguem contrafortes, torres e ameias contra inimigo inexistente a não ser o vento ora nordeste ora sul. São arranha céus terríveis e ameaçadores que acabam com a circulação de ar no povoamento. Só posso imaginar que o inimigo em questão seja o pó de minério contido no vento que as usinas de Ponta de Tubarão generosa e abundamente distribuem por via aérea aos autócnones. São toneladas e mais toneladas numa rara demonstração de ininterrupto desprendimento. No entanto, são os da vanguarda contra o vento dominante que recebem o maior quinhão desse precioso pó negro. Conhecidos habitando a jusante do vento nordeste mostraram-me pás do minério colhidas em suas varandas em uma só manhã. Isso é profundamente injusto e acho que cabe reclamação às boníssimas usinas a fim de que providenciem uma distribuição mais eficiente de seu ferro em pó para aqueles que foram prejudicados.


Muito aflita confessava velha amiga ao sentir-se cada vez mais cercada em seu refúgio outrora dotado de infinita vista e infinitos ares e insolação em perder dia após dia seu parco acesso ao ar e à beleza do lugar. Seu calvário se dá às pancadas das citadas paliçadas preliminares a serem cravadas ao chão, o que a priva de recolhimento e tranquilidade. Sei de determinado canto, imaginem vocês, caros leitores, bem ali perto de onde lamenta seu pobre destino essa queridíssima amiga, onde belas residências poucos anos atrás encarapitavam-se gloriosa e orgulhosamente em morro à beira-mar. Pois não é que solertes burgomestres aterraram o mar e trataram autorizar o cercamento do pobre morro por essas muralhas de tijolos? Quase todos tiveram de levantar acampamento e os que teimosamente permaneceram sofrem a claustrofobia dos injustiçados.


Estranho lugar, onde célebre construtora orgulhosamente ostenta nome e retrato de grande erro de engenharia italiano - a Torre de Pisa!